quarta-feira, 22 de julho de 2009

me perdendo é que me encontro - por Eliza

Cecilia, querida minha,


Nunca fui muito boa nas brincadeiras de esconder. Desde criança, os esconderijos me afligiam, especialmente aqueles de onde não conseguia controlar os passos que deveriam me descobrir. Um pouco mais tarde, quando as palavras tomaram o centro da cena, também com elas eu me revelava sem pudores e cheia de veemências e impulsividades. Quantas vezes fui desastrada por isso?! Nossa, nem sei! Só muito tempo depois aprendi o valor de silêncios. E mais tarde ainda, de recolhimentos...


Talvez por isso, esse o quê sobre o qual você me indaga primeiro tenha me inquietado, como os perseguidores da infância. Entretanto, rápido, num rodopio, encontrei-me em outro lugar nesta brincadeira que você propôs: saída do esconderijo, de cara pro céu e pro sol, era eu o perdigueiro, era eu o caçador, era eu quem investigava o que quer que se esconda... o que quer que seja esse imutável que recebe as circunstâncias mais diversas, coloridos sazonais, e lá permanece, fiel como a rocha...


Assim, parti na missão que me propuseste, e carreguei comigo as últimas palavras de um amigo, a quem ainda hei de te apresentar. Na última vez em que estive com ele, suas poucas palavras, já que quem falou quase sem parar fui eu, foram para me lembrar de nossa condição aprendiz, de nosso não saber, de nossa infinita ignorância... Lembrou-me disso como a condição imprescindível para a caminhada, assim como para as paragens.


Que outra coisa, portanto, posso te dizer além de que não sei... e porque não sei, suponho, achando e perdendo respostas, para tornar a procurá-las... Mas reconheço três significantes que se embrenham e se separam como se deles eu não pudesse me livrar nunca: o desejo, o amor e a responsabilidade.


Não sei dizer de quantas formas eles podem se organizar (e se desorganizar...), pois que parece multiplicarem-se em mil facetas, mil disfarces, e ainda por cima, virem adereçados de tal forma, que por vezes mal consigo reconhecê-los... Mas exigem-me comprometimento, cada um convocando a negociação com os outros; nenhum dos três concordando com abdicação ou negligência. Três anjos e três algozes; três crianças e três anciãos.


Às vezes, querida, muitas vezes, para ser mais verdadeira, eu me perdi até do meu nome. Mas, convenhamos, essa coisa de assinatura não é tão simples como parece, veja só: nasci com nome composto, por desejo do meu pai: Maria, por desejo materno: Eliza. Incapazes da decisão aceitaram-me por junção: Maria Eliza, Pereira Nunes (de mãe), Maciel (de pai)... Passei a vida tentando encurtar meu nome, sempre com medo de que o interlocutor não esperasse até o final da minha apresentação, especialmente porque eu ainda deveria acrescentar elizacom”z”porfavor... assim, sem respiração... Ou não era eu, entende?


Como se fosse pouco, com apenas um ano, tive uma babá chamada Maurita, a quem por pura incompetência, chamava de Iti... batizou-me, acho que por retaliação, de Pitty. E como profecia de fada-madrinha, o apelido virou carinho e acompanhou-me vida afora... E lá ia eu tentando saber quem eu mesma era... E, como por carinho não se recusa nada, lá ia eu respondendo a uma tia que me chamava de Mali, uma prima que preferia Maloliza, uma amiga que inventou Maiza, e depois achando grande demais, encurtou-me: Mai. E tudo isso era eu? Mas afinal, quem eu era?


Aos poucos fui descobrindo ainda outros desdobramentos. Se, por exemplo, me chamam ao telefone D. Maria, por favor. Pode estar certa: ou é credor ou ação de marketing... Meu Deus, quantas possibilidades pode haver num único nome!


Passou-se algum tempo e foi chegando o dia do meu casamento, e com ele a oferta de Camillo. Achei por bem acrescentá-lo ao final do nome, sem a retirada de nenhum daquele já tão comprido. Provavelmente não queria deixar de ser filha, você deve estar pensando. É possível, é provável...


Respondi ainda ao delicado chamado de Amor. Assim, como nome próprio e, mais tarde, Mãe, também assim, como se fosse a única.


Veio a separação... e o convite a dispensar o Camillo... Confesso: metade foi alívio, a outra metade, ressentimento. Mas, acho que dispensas causam mesmo isso, não? Agora, diga-me: naquele momento tornei-me menos? Ou recuperei a autenticidade?


Com a continuação da jornada, já ganhei pseudônimos, já me nomeei eu mesma com o nome de outra, e ainda assim, eu.


E agora me vem você, com esse algo que me anima, esse algo que fornece sentido, esse algo inominável, e tão único quanto a digital ou o DNA... que não mora num nome, mas confere identidade, não é genético e tampouco aprendido, e que sendo singular só existe porque plural, e porque perdido, encontra-se em algum lugar... Ah, essas brincadeiras de esconde-esconde... Mas, afinal, e você, onde se revela?


A tua espera,
Eliza
imagem de Tude Oswald - retirada de www.overmundo.com.br


Um comentário:

Mercedes disse...

amiga querida. nos perdemos,nunca desisti de te encontrar. te procurando encontrei essa carta. bastou ler 2 ou 3 paragrafos e ja sabia q era vc.vc escreve como ninguem. quanta saudade!continuei lendo -senti o perfume do seu cabelo molhado - mais saudade.fiquei c raiva - vc tao perto e tao longe. tantas coisas p falar... sera q vc vai ler o meu recado? vc mora no meu coraçao e faz parte dos meus pensamentos/da minha historia. nunca perco a esperança. tenho certeza q nossa amizade nao existiu so por um periodo e acabou. ela ainda nao acabou. bjs, mercedes basilio.